Beatriz Oliveira

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Imagem tirada do teaser Bori, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=IFyMPTnu-j4

Feitura.

Manipulação.

Eixo. Equilíbrio.

Coletivo. Individual.

Transe.

Procedimento. Experimento.

Cicatriz. Cicatrizes. Marca(s) e mancha(s)... passos de um processo que começou há muito tempo. Caminhos percorridos pelos meus e outros pés, muitos pés. Movimento.

É caminhando que vivo o caminho. Sigo só, entre e em par(es). 

É caminhando que descubro os porquês e as rotas.

É caminhando que entendo que para frente nem sempre é a melhor direção. Recuar é seguir. Parar também é seguir.

É caminhando que repenso o que é dança e a cada passo percebo que comer, sorrir, calar, ouvir, estar, sentir e ser também são ações que determinam o meu dançar.

É caminhando que decido o que carregar na bagagem e engatilho memórias, me apoio e sou apoio de outros corpos, espaços e percursos. 

É caminhando que (re/des) construo histórias.

É caminhando que conheço o caminho.

Sigo. Desconfiada, aos poucos me permito ao desconhecido que, por muitas vezes, conhecido é. Descontrolada, passeio e ora me rendo ao medo de me perder (ou me encontrar) e ora cedo a necessidade de estar.

Pode um corpo esvaziar-se de si para preencher-se do outro? Quanto espaço há em cada corpo? Quanto espaço cada corpo ocupa? Quais são os espaços que nos habitam?

O movimento de ir ao encontro do outro no território de despertar de cada corpo, para olhos e ouvidos atentos, é aprendizado e entendimento. Entendimento do que não é dito, do que não se sabe ser vivido, das construções individuais e coletivas de cada expressão, permissão e ação. Movimento de escuta e muito afeto. Pausa do eu, observação do seu, vivência do nós. Riqueza, potência e transformação. Odores, texturas, sabores, sorrisos... um jeito de corpo que requer intimidade e que precisa se sentir à vontade para acontecer e, mesmo que seja por entre as frestas daquilo que se espera, acontece.

E por falar no que se espera, como já diziam os mais velhos “nem tudo é como a gente quer”. Pausa do eu, do seu e do nós. Há percursos e perguntas que ficaram no imaginário e o “não deu tempo de ir” deu lugar ao “não era tempo de ir”. Meu olhar se choca com o reinado do tempo em ação. Tempo de escolhas simples e complexas que ditam rumos.

Se encontrar com alguém parecido é gira... e gira. Gira até se compreender o confiar. Gira até se entender que o que precisa e pode ser dito. Gira até a entrega dos sorrisos. Gira no tempo e nas gerações. Gira em reza, em oração, daquelas que tem o poder da cura, esteja perto ou longe, aqui ou em outra dimensão. Gira em rezas de vó.

Se encontrar com alguém oposto, também é gira... e gira. Gira até se atrair, assumir as admirações do outro em si. Gira em entrega e partilha. Gira em eixos, desejos e caminhos. Gira junto, agarradinho, abraçado a um feminino comum e particular. Gira em dois, em muitos e em par. Gira por necessidade e essência de girar.

Se encontrar em si, também é gira... e gira. Gira em lembranças e faz lembrar. Gira doce, se deslocando para fora, para dentro e no mesmo lugar. Gira nela, nas outras e em mim. Gira em vermelho, em crochê e em feitiço, assim como a cozinha de minha mãe, aquela de outros e desses tempos, que carrego no gosto e nas memórias. Espaço sagrado, mantenedor de saberes, fazedor de estratégias de sobrevivência, alicerces da fé que me constitui. Reflete. Aquece. Alimenta. Gira.

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Pelo olhar de Thico Lopes

Das conexões e laços feitos por outros pés, me deleito. Canto em oração, com passos que me levam de volta para a casa que mora em mim. Devagar, finco raiz, aterro e me demoro. Contrapondo a cronologia do tempo linear, que tanto tenta me excluir, me permito. Choro. Contraio. Sinto. De mãos dadas, entendo e me enxergo. Choro. Expando. Entrego. Vivo.

Me vejo por, através e além das marcas que arrancam lágrimas e sorrisos. Marcas manchadas que aqui podem ser ditas, vistas e mantidas, assim como meu corpo e aquilo que o constitui. Tudo é celebrado e compreendido: os caminhos, as alegrias, as fragilidades e dificuldades. Tudo é corpo e cada corpo existe. Existe como se é e como se quer ser. Existe preto, poético e político. Existe tal qual as cicatrizes que dançam num tempo outro, único. Poder. Superpoder. Poder se ver com superpoder. Poder saber um superpoder. Poder escolher. (Super)Poder.

Cicatrizes é (e continuará a ser) passos de um processo que começou há muito tempo. Tempo que passeia por entre mundos, que transita entre tempos e que no tempo certo cicatriza. Tempo que se veste de muitas formas e assim nos dá tempo de entender e quem sabe apreciar. Tempo de conceber. Tempo de nascer. Tempo de amadurecer. Tempo de morrer. Tempo de reviver. Tempo que pulsa, floresce e recomeça.

Sigo nos caminhos percorridos pelos meus e outros pés agradecendo e louvando as existências que habitam em mim.

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Pelo olhar de Ian Muntoreanu