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Ana Beatriz de Oliveira Camargo

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Imagem tirada do teaser Bori, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=IFyMPTnu-j4

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Nós

 

Quando criança me sentia fascinada pelo brilho do palco e o pulsar do ritmo das músicas, mas o colã azul, a meia-calça cor-de-rosa e o coque no alto da cabeça não me seduziram.
Senta direito, menina. Fecha essas pernas.
Para de rebolar, que coisa feia.
Na ponta, meia ponta, pezinhos de bailarina.
Pernas esticadas.
Isso sim é música, não aquilo que vocês ouvem.
Não! Isso aí é folclore, clássico é dançar ballet, ser bailarina.
Muitos anos mais tarde, em um novo encontro com a dança, meu corpo passa a identificar em si e nas mulheres ao meu redor movimentos que, dentro das instituições formais, nunca foram ensinados, mas que, de uma maneira outra, vivenciados em outros espaços de ensino, já haviam sido aprendidos. Mudo a direção do caminhar e, como o Adinkra Sanfoka nos ensina, passo a buscar no passado respostas a essas e a outras inquietações que vão surgindo. Recorro ao meu corpo e nele encontro outros corpos.
Começo me perguntando: Por que Eu danço? Entendendo o poder da escrita dentro dessa sociedade, me utilizo dela para me afirmar enquanto sujeito de minha própria história. Eu, grande, assim, com letra maiúscula no meio da frase, contrapondo o que impõe a norma culta. Na ânsia de obter alguma resposta, em um primeiro momento, volto a infância, me encontro com a Beatriz menina que sonhava em ser artista e que sorrindo me diz: olhe ao redor.
Procuro por registros das minhas velhas e percebo que além de poucos e raros, grande parte de suas histórias estão nas memórias, nos fazeres e na maneira de ver e experienciar o mundo daquelas que estão nesse plano. Por medo de que esse pouco desapareça e que essas mulheres sejam totalmente esquecidas, há pouco mais de 3 anos comecei a conversar com algumas delas na intenção de - de alguma maneira - registrar esses relatos e compartilhar com o restante da família. Cada conversa, de diferentes e iguais maneiras, me levava a um novo entendimento de corpo, do meu corpo.
Ao longo desse processo vou entendendo e reconhecendo a importância dos saberes passados por essas mulheres sobretudo nas festas que em geral aconteciam nos quintais e nas cozinhas da minha família. Percebo que os sambas, as saias, os giros e as giras além serem a base da minha formação enquanto artista e moldar o meu experienciar de mundos, também são fios condutores nesse entrelaçar de histórias. No entanto, quando percebo que o antigo desejo de conhecer um pouco mais das minhas mais velhas é também falar sobre mim, há um espanto. Corro. Fujo. E quanto mais me escondo mais presa fico a essa ideia-teia.
Respiro. Retomo.
A pesquisa “Nós” tem como proposta resgatar os saberes transmitidos através de processos vivenciais que utilizam a oralidade como forma de sistematização e transmissão de conhecimento. Aqui, me utilizo do conceito oralidade da mesma maneira que Luiz Fernando da Silva Anastácio (2018, p. 793) aborda no artigo “O corpo que fala é o corpo que escuta” onde ressalta que “a oralidade não se restringe ao sentido da fala, ela abrange a integração do corpo como um todo, sempre em resposta aos estímulos de uma vivência.” Ainda no mesmo artigo, Luiz enfatiza a importância da oralidade no aprendizado: “A oralidade por possuir características como a inclusão do indivíduo no coletivo e a união indissociável de teoria e prática, relaciona-se com o conceito de tradicional, uma vez que este, com seus parâmetros de conhecimento e reconhecimento, permite também esta inclusão do indivíduo e a união entre saber e fazer. Na contramão, está o sistema de ensino formal, que visa o acúmulo de informação sem necessariamente gerar uma visão crítica sobre o assunto, o que o aproxima e legitima a prática de folclorização, tão comum atualmente, a qual pode vir acompanhada de um conhecimento superficial sobre o tema, mas também não possui uma visão crítica a respeito dele.”
Esse trabalho não se trata da negação dos conhecimentos adquiridos nas instituições formais de ensino e sim da urgência de tencionar, dentro desses espaços, a discussão da importância de se reconhecer outras formas de transmissão de conhecimento que pensam saber e fazer a partir de uma perspectiva epistemológica que integra o indivíduo e não tenta deslocá-lo daquilo que é, do lugar de onde vem ou de sua história.
No documento Orí, lançado em 1989 pela cineasta e socióloga Raquel Gerber, Beatriz Nascimento, intelectual, historiadora, pesquisadora, poetisa e ativista do movimento negro, aponta que se reconhecer no outro é parte importante dos processos de restituição da humanidade e reconstrução da identidade negra. Segundo ela, “É preciso a imagem para recuperar a identidade. Tem-se que tornar-se visível. Porque o rosto de um é o reflexo do outro, o corpo de um é o reflexo do outro, e em cada um o reflexo de todos os corpos.”
Acredito não ser possível pensar o ocidente sem falar de raça enquanto construção social. O negro nasce a partir da construção branca de humanidade. O negro é o outro. O racismo, mecanismo pautado nas relações de poder e entranhado nas relações sociais, se estrutura e se estabelece através de uma ideologia que nega sua própria existência. O mito da democracia racial, fortemente presente no imaginário da população brasileira, naturaliza os espaços subalternizados destinados a corpos negros. O resultado é um sistema que permite um quadro social onde a manutenção de privilégios de uma pequena parte da população é tida como normal.
Os corpos de mulheres negras carregam uma série de estereótipos negativos cuja sequelas são determinantes na maneira que entendem a si, suas trajetórias e seu entorno. (Re)Contar as histórias que a história não conta, como bem diz o samba-enredo de 2019 da Estação Primeira de Mangueira, é um resgate de extrema importância tanto para minha identidade enquanto mulher negra como para a reconstrução diária da minha autoestima. Conseguir enxergar no modo de ser e viver daqueles que vieram antes possibilidades reais de existência, muda o cursar da minha história.
Desde muito cedo ouvi que o vermelho vibrante que aprendi a gostar observando os tecidos e unhas de minha mãe era a mesma cor taxada de proibida para coloração de lábios como os meus. O cabelo crespo que tanto me esforcei para esconder e/ou deformar era a mesma textura que via minha avó ostentar com muito orgulho enquanto nos apresentava o seu pente garfo, guardado com muito cuidado, como um troféu. Não desejei ter vitiligo (doença que causa a despigmentação da pele causando manchas brancas), mas aos poucos, acreditei que na medida em que ele fosse avançando, sumiriam os problemas que o tom da minha pele me trazia. O sambar vivido em dias de festa ou de luta, da porta para fora, já era apontado como única possibilidade de bailar, desde que para isso o meu corpo fosse público e estivesse a mostra, independente da minha vontade.
Meus desejos e quereres vão sendo moldados por um discurso hegemônico que determina o que posso ser e os espaços que posso ocupar. Me torno uma criança que, por não querer ser uma menina negra, nega diversos símbolos que naquele momento me ligam a um determinado tipo de feminino e é só com o passar de muitos anos, devagar, que entendo que aquelas saias, que tanto vi rodar, mas que tanto fugi, se tornam portais que me levam ao encontro das minhas mais velhas e ao reencontro de mim.
No artigo “Performances da oralitura: corpo, lugar de memória”, Leda Maria Martins (2013, p. 66) pensa e discute corpo enquanto território de inscrição de conhecimento e práticas, segundo ela “o corpo em performance é, não apenas, expressão ou representação de uma ação, que nos remete simbolicamente a um sentido, mas principalmente local de inscrição de conhecimento, conhecimento este que se grafa no gesto, no movimento, na coreografia; nos solfejos da vocalidade, assim como nos adereços que performativamente o recobrem. Nesse sentido, o que no corpo se repete não se repete apenas como hábito, mas como técnica e procedimento de inscrição, recriação, transmissão e revisão da memória do conhecimento, seja este estético, filosófico, metafísico e científico, tecnológico, etc.” Acredito não haver nada de inédito em estabelecer um diálogo com a mãe, a avó ou a bisavó, no entanto, entendo que, para grande parte da população negra, ainda que minimamente e aos poucos, visto que esse não é um caminho fácil, resgatar essas origens a ponto de se entender como protagonista de sua própria história pode ser revolucionário.
É importante ressaltar que, nesse momento, a família a qual me refiro, é a materna. Dona Matilde, minha avó paterna, vítima de violência doméstica, fez sua passagem quando papai ainda era criança e depois disso ele perdeu o contato com sua irmã, irmãos e demais parentes. Ainda há muito para saber dessas histórias e no tempo certo, elas também serão contadas.
Danço com a minha bisavó quando as saias giram ao som do Tambor de Crioula. Danço com a minha avó quando as saias embalam os quadris nos sambas de roda. Danço com a minha mãe quando as saias insinuam ao som do samba rock. Danço com as Yabás quando o girar das saias me leva ao (des)conhecido. Danço com outras tantas mestras quando as saias dançam comigo. Danço com todas elas porque elas dançam em mim.
Inicio uma conversa a 4: eu, Ana Beatriz de Oliveira Camargo, minha mãe, Sonia Maria de Oliveira Arão Camargo, minha avó, Maria Magdalena de Oliveira e minha bisavó, Maria das Dores de Oliveira. No entanto, acredito que por agora, seja necessário um recorte, e a conversa com a bisa, ainda que permeie as relações estabelecidas nesse e com esse trio, se dará em um outro momento, num tempo que é nosso. Ser minha mãe, minha avó ou minha bisavó, me parece que é reduzi-las a um pedaço muito pequeno diante da complexidade da existência de cada uma e isso só me chega aos olhos, quando ao perguntar para minha mãe, Sonia Maria, quem é Maria Magdalena, percebo uma certa diferença no seu corpo, na entonação da sua voz, na escolha das palavras na sua resposta. Naquele momento, Dona Sonia não é mais minha mãe, é a filha de Dona Magdalena, que no começo dessa história, ainda nem sabia (ou sabia) que seria a minha avó.
Hoje, passado algum tempo, olho para o início dessa jornada e percebo o quanto romantizei o caminhar. Acreditava que seria um passeio tranquilo, por entre flores e memórias cheias de cor. Ignorei as possíveis e necessárias paradas. Foi preciso, palpavelmente, me aproximar dessas mulheres. Suas fotos adornam as minhas paredes. Escrevo e danço olhando para elas. Todos os dias. Há dias em que vê-las aquece o peito e impulsiona o seguir, ainda que os olhos transbordem os afetos. Em outros, as dores que nos separaram por tanto tempo me fazem desaguar.
Respiro. Retomo.
Nós. Mestra Maria Magdalena, que dentre tantas coisas, também é minha avó. Reconheci o Samba de Roda no miudinho cadenciado que Dona Maria Magdalena, minha avó materna, me ensinou. Mulher negra, neta de Ovídeo Monteiro da Costa, escravizado alforriado, nascida em 1937, na cidade de São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Quando chego nesse mundo, em janeiro de 1983, ela já era mãe de 4 filhos, 2 mulheres (uma delas é minha mãe, Sonia Maria) e 2 homens. Desquitada, vovó morava sozinha, no porão da casa dos meus bisavós, Dona Maria das Dores e Seu João Domingos, no Jardim Japão, Zona Norte de São Paulo, pertinho do espaço que hoje fica a quadra da Escola de Samba Unidos de Vila Maria.
Lazinha, como carinhosamente era chamada pelos amigos, foi quem me ensinou a rezar. Me apresentou a Santo Expedito, o santo das causas urgentes. Dizia que se a gente acreditasse, ele atendia. Todo décimo nono dia do mês ela rezava para ele e todo mês de abril ia até seu encontro, lá no centro da cidade, na igreja que carrega seu nome. Para Santo Expedito ela me ensinou a rezar, mas foi nos sambas e terreiros, sem me dizer uma única palavra, que ela me ensinou a ter fé.
Filha do senhor da terra, Obaluaê, Dona Magdalena sempre sorria ao dizer seu nome. Eu era pequena a primeira vez que a ouvi falar sobre ele e mesmo não sabendo quem era aquele senhor a quem ela se referia com tanto amor e respeito, também desejava ser sua filha. Ah… se eu soubesse...
Queria colocar roupa branca e saia rodada nas festas do candomblé igualzinho ela fazia. Queria bater cabeça e saudar com tanto respeito como ela. Queria nas festas não poder comer qualquer coisa da mesma maneira que ela não podia. Queria sorrir e cruzar a cabeça quando nos sambas alguém cantasse Minha Fé, composição de Murilão da Boca do Mato, eternizada na voz de Zeca Pagodinho.
E há quem diga que essa minha vida,
Não é vida para um ser humano viver, podes crer
E nas mandingas que a gente não vê
Mil coisas que a gente não crê
Valei-me, meu pai, Atotô Obaluaê
Ah… se eu soubesse...
Sambista, Dona Magdalena foi quem me ensinou a sambar e ainda que não tivesse o título, hoje entendo que ela foi minha primeira professora de dança, minha primeira mestra. Mais do que saber o que fazer com os pés, vovó me ensinou a usar o corpo todo. Planta dos pés no chão, bem apoiadas, conexão direta com a terra e com o que ela gera. Joelhos ligeiramente flexionados, bem pouquinho mesmo, quase que um sopro de ar, só para não me machucar. Fortalecimento das bases, bacia pesando para baixo. Pés-raízes. Os movimento dos pés ao mesmo tempo que eram curtinhos e cuidadosos eram também fortes e certeiros. Passos marcados. Fundamento. É preciso muita sabedoria para ensinar alguém como acarinhar a terra daquele jeito. Há de se ter respeito.
No meio de um samba bem miudinho, de repente Dona Magdalena apoiava o peso do corpo na perna direita e como quem tomba para a frente, em câmera lenta, simulava uma quase queda. Vi essa cena por tantas vezes que ainda consigo ouvir a risada dela enquanto reorganizava o corpo e voltava a sambar. Nós, suas netas e netos, chamávamos (e ainda chamamos) aquela experiência de “caidinha da Vó”, que bem mais tarde eu reconheci nos pés dos caboclos, caboclas e boiadeiros que conheci no Abassá Burungunzo Orokedan e Dandaluna Ajiomu, terreiro de candomblé da nação Angola, espaço que me abrigou e me abriga até hoje.
A cozinha da vó tinha cheiro de salsinha, costelinha de porco e sopa de feijão. Como dizem lá em casa, vovó tinha mão cheia para cozinhar. Ela dizia que sua comida era simples, como se a simplicidade fosse algo fácil de se alcançar. Com uma colher de pau, uma tábua de madeira, uma panela de ferro, um pouco de banha de porco, uma cabeça de alho e uma cebola, vovó fazia mágica. Se eu ficar bem quietinha, ainda consigo ouvir o chiar tão presente no fazimento de seus sabores.
As saias da Vó Magdalena em geral eram longas e ela as repousava no busto, como um vestido, quase nunca as vi na cintura. De tecidos claros e leves, poucas vezes as vi subir em giros. Durante o dançar, sempre sorrindo, por diversas vezes, vi vovó levantar a barra da saia, como quem tenta verificar os próprios pés. Há quem pense que ela não sabia o que estava fazendo, quando na verdade, aquilo era parte do seu charme e ela só fazia para enfeitar. As giras para onde as saias da vó me levaram me ensinaram a crer e ainda hoje, nos giros daquelas saias, eu recebo um tantão de saberes.
Nós. Mestra Sonia Maria, que dentre tantas coisas, também é minha mãe
A vó Magdalena me ensinou a aterrar os pés, mas foi Dona Sonia Maria, minha mãe, quem me apresentou a outras possibilidades. Com ela meus pés ganharam um novo desenho, o peso antes distribuído igualmente em toda planta já não permanece assim todo o tempo e em alguns momentos é transferido para o metatarso. O samba deixa de ser miudinho e ganha mais espaço com a amplitude dos braços, deixa de ser em roda e passa a rodar. É assim que ela me apresenta os sambas enredo, daqueles que ela aprendeu a amar lá na Bela Vista, no Vai-Vai, onde começou a namorar o meu pai, Milton Leite Camargo. Namoro esse que já dura 39 anos.
Quero ver você sambar como sambou papai
Quero ver você dançar como dançou mamãe
Papai sapateou um gostoso miudinho
Mamãe dançou com ele de rostinho coladinho (Trecho da música Papai Vadiou, composta por Rody Do Jacarezinho / Gaspar Do Jacarezinho e eternizada na voz de Leci Brandão
Carnaval lá em casa é coisa séria. Assistir aos desfiles das escolas de samba de São Paulo e do Rio de Janeiro era tarefa quase que obrigatória, ainda é. Salgadinhos, tortas, sanduiches, cervejas e refrigerantes, tipo festa de aniversário. Cobertores e travesseiros no chão da sala. Eu era criança e me lembro que durante esses dias estava liberado dormir bem tarde. Valia tudo para ficar acordado e ver o Vai-Vai passar, até porque era preciso ter argumentos para discutir com os jurados, ainda que a distância e mediados pela transmissão da TV, cada nota baixa que a escola pudesse receber. Até hoje meu pai diz que é roubo.
Cresci ouvindo as histórias de carnaval que meus pais viveram na Bela Vista. Papai, cheio de orgulho, guardava uma de suas fantasias, bordadas a mão, por ele mesmo. Era linda. Meus olhos se enchiam de alegria ao ver aquela roupa tão brilhante. Até hoje mamãe se orgulha de ter desfilado vestindo um maiô bem pequenininho e ter sido campeã. Ela enchia a boca para dizer que foi campeã. Em 2015, no meu segundo ano de desfile, entendi o que era ser campeã. Me lembro que assisti à apuração lá no Bixiga, na quadra do Vai-Vai e assim que fomos declarados os vencedores do carnaval do grupo especial de 2015, liguei para minha mãe aos prantos gritando: “Ganhamos! Ganhamos!”. Do outro lado sorrindo ela me respondia: “Eu sei, filha. Eu sei”. Aprendi a ser Vai-Vai ainda pequena, caminho que sigo até hoje.
Ainda me lembro da primeira vez que pisei na Bela Vista. O sonho da menina Beatriz ganhava chão. Solo sagrado. Berço de bambas. Casa de grandes baluartes. Escola de Samba. É preciso pedir licença para entrar. As histórias ouvidas na infância ganham corpo e meu corpo ganha novas histórias. Foi lá que eu aprendi que a rua é espaço cênico, é território de saber e é também o meu lugar. Foi lá que pela primeira vez me entendi artista e é para lá que eu volto e pretendo sempre voltar.
Minha escola. Lindo manto. Preto e branco. Meu viver
Sou Vai-Vai da Bela Vista e serei até morrer.
(Composição de Danilo Alves)
A cozinha da minha mãe até hoje tem cheiro de pão quente e feijoada. Era de lá que ela me via brincar no quintal e, dentre outras coisas, me ensinava a dar mais cor e sabor à vida. Até hoje, na casa da Dona Sonia, a cozinha é local sagrado, de aprendizado. E lá onde ela se sente dona, onde se senta para conversar e tomar café, onde me conta o que aconteceu na novela, nas panelas e na vida dela. Sempre foi assim.
Foi da cozinha que, muitas vezes, vi um outro sambar. Em dois, meus pais, ora bem juntinho, com quadril para lá e para cá, ora separado, mas sem se soltar. As saias, mais curtas que as da minha avó, brincavam nesse novo bailar. Eram muitos os rodopios e eu me perguntava: como ela sabia a hora de girar? O encantamento me levou a curiosidade que me levou ao aprendizado e foi assim que descobri que aquilo também era samba, de nome composto, samba rock. Giro simples, giro duplo. Foi no samba rock que aprendi a delícia que é girar, me utilizando da mesma atenção que vovó me ensinou a dar aos pés. Depois que meu corpo girou, nunca mais parou.
Apesar do riso fácil e farto, Dona Sonia é chorosa, traz sempre os olhos marejados de emoção e é essa a lembrança que eu tenho do seu primeiro olhar. As águas, frutos das tristezas, raramente vi desaguar. Dona Sonia sempre sonhou em ser médica, mas as dificuldades do ingresso na academia não a deixaram realizar. Aos 23 anos, mamãe prestou concurso público e trabalhou na área da saúde até se aposentar. Mais tarde, em 2008, se formou em Técnico em Farmácia e até hoje, dentro da família dos amigos mais próximos, é ela quem explica os resultados dos exames e indica as modalidades médicas nas quais devemos nos consultar. Sem contar os chás e remédios caseiros que ela guarda na manga, para o caso de precisar.
Diferente das saias da vó, as de minha mãe sempre estiveram na cintura, cheias de texturas, cores e estampas. Não eram longas nem curtas, tinham o tamanho que permitia o jogo de esconde-esconde de joelhos e coxas. O quadril era mais sinuoso, fazia um outro desenho no ar. Ele sempre sabe quando está sendo observada, mas finge que não. Guarda os sorrisos no canto da boca até explodirem em gargalhadas. As saias de minha mãe, assim como as de minha avó, também me ensinaram a crer e ainda hoje, nos giros daquelas saias, eu recebo um tantão de saberes.
Nós. Os dizeres do corpo
A pesquisa “Nós.” nasce da necessidade de encontrar outras possibilidades de me ver e me entender no mundo. Demorei a compreender que ela sempre esteve em movimento, seja na observação dos corpos que a compõem, seja nas alterações de direção do caminhar, seja pelo entendimento do tempo vigente e a escolha do formato utilizado no compartilhamento, seja no vestir das saias, seja no sorrir dos giros. O método escolhido lá atrás, quando começaram as entrevistas, ganha referência quando encontro os escritos de Inaicyra Falcão dos Santos (2019, p. 174), que no livro “Corpo e Ancestralidade: Uma proposta pluricultural de dança-arte-educação” propõem “uma inversão de caminhos, ou seja, primeiro o aprendizado do conhecimento revisado do que somos, do nosso local de origem, e, segundo, o conhecimento dos outros, construindo um saber de ‘dentro para fora e de fora para dentro’.”
Chegar até aqui não foi fácil. Permanecer na instituição é puxado. Foi preciso entender que corpo é esse que dança em um prédio construído e readaptado para aprisionar corpos como o meu. Que corpo é esse que, muitas vezes, por questões físicas e/ou emocionais, é impossibilitado de expandir? Que corpo é esse que luta para se afirmar enquanto corpo dançante dentro de um espaço que nem sempre consegue enxergar sua humanidade? Onde estavam os docentes que se pareciam comigo? Era justo, colocar nas costas de tão poucos, as complexidades que nós, alunos negros trazemos?
Além de todos os atravessamentos citados anteriormente e aqueles que tendem a surgir durante um processo de pesquisa, no meio do percurso se instaura uma pandemia causada por um tipo de coronavirus recém-descoberto responsável pela covid-19, doença transmitida por contato próximo entre uma pessoa doente e outra pessoa, cujo quadro clínico pode variar de infecções assintomáticas a graves problemas respiratórios levando a óbito. No Brasil, a covid-19 acomete, em sua maioria, corpos marginalizados seja pela impossibilidade de se manter em isolamento social, seja pela irresponsabilidade difundida e reforçada através de falsas notícias que circulam livremente e discursos e atitudes negligentes e homicidas dos dirigentes do poder público, seja pela dificuldade de acesso aos serviços de saúde.
Terminar um curso técnico em dança estando em isolamento social, mediado por telas, online, “sozinha”, não é uma tarefa fácil e em um primeiro momento me parece impossível. Que corpo é esse que se refaz enquanto presencia o cair de outros corpos? Que corpo é esse que se espera ver? E o meu corpo, quer ser visto? É preciso tempo para se entender nessa nova condição e reorganizar os sentidos e sentimentos.
Respiro. Retomo.
Desde o começo, foram muitas as inquietações. Grupo, dupla ou solo? Ainda que fossem trazidos muitos corpos para essa dança, mais uma vez era preciso olhar ao redor. O fiz. E assim nos juntamos, eu e Juliana Martins e passamos a dividir as angústias, as delícias, as leituras e as pesquisas, mesmo sabendo que, cedo ou tarde, seria necessário, sem se perder, distanciar, ou melhor, ganhar outros caminhos. De início, o diálogo se deu a partir dos movimentos que já tínhamos no corpo. O quadril do samba que minha avó me ensinou e minha mãe remodelou conversava com o quadril do funk que a Juliana traz e estuda. Aqui é preciso ressaltar a importância do (re)encontro com meus pares dentro desse processo de construção. A meu ver, não há seguir sem troca, fala, escuta e afeto. É preciso manter as bases fortes e assim como Juliana, Rafaela Araujo e tantxs outrxs pretxs que ali estão e estiveram me ajudam a manter os pés-raízes. Aquilombar.
Havia também uma certa dificuldade em estabelecer com essa pesquisa uma relação mais próxima com a instituição. Referenciando e vindo de processos outros que, muitas vezes, observados de fora, tendem a serem vistos como caóticos, as paredes da sala de ensaio pareciam não me caber. O corpo não alcançava o sentir e não se via como ser. Foi quando me lembrei de um importante conselho dado pelo Professor Luiz Fernando da Silva Anastácio, um dos poucos professores negros da instituição: “não deixe que processo te mate”. Era preciso expandir e explorar outros espaços. O fizemos. Iniciamos do lado de fora. Fones de ouvido, o cheiro da noite e olho no olho. Assim foi e ainda é.
Retomo as entrevistas, recolho algumas fotos, revisito alguns vídeos e me pergunto: será preciso atender a uma certa necessidade de estar sempre criando algo ou reconstruindo aquilo que já existe? Percebo que por ora, o “inediatismo” não me interessa. O caminho que trilho, não é feito por mim. Os passos que dou vem de antes, de muito longe. É rito. Ritual. Meu corpo, que nesse momento, luta para sobreviver a uma pandemia e ao apagamento, buscando referências em espaços que em nada se assemelham às instituições formais de ensino, mas que são a base da minha educação.
Foi preciso revisitar os procedimentos iniciados no semestre anterior e criar outros tantos completamente diferentes daquilo que eu havia pensado, uma vez que o corpo em quarentena é outro. Escolho como território a cozinha, que por meio de odores, sabores e saberes me conecta às minhas mais velhas. Estabelecer uma nova relação com a cozinha também é resgatar o que delas há em mim. Foi importante observar suas luzes e sem sons e provocar e acordar memórias.
Visto minha saia mais bonita e decido passar um dia na cozinha. Assim como aquele espaço, as saias são sagradas. No terreiro aprendi que o correto é colocar por cima, da cabeça em direção aos pés. Assim faço. Como se fosse uma armadura, à medida em que me veste também me protege e me transporta para outro lugar, como um portal entre mundos individuais e coletivos. O corpo muda, ganha outro tônus. Os giros chegam e me deixo girar. Como é girar na cozinha? Que sensações os giros despertam? Que novas cores o espaço recebe? A qual temperatura chega o corpo de pés em giro? De quais sons é preciso se aproximar? Que corpos chegam a mim?
Noto que pela manhã uma fresta de sol, vinda da janela que media minha relação com a rua, aquece o piso frio. Ali repouso meus pés. Sinto. Aterro. Brinco. Brinco com um pisar levemente firme de minha avó e com os passeios ondulados de minha mãe. Transferência de peso e apoios. Os pés acordam o restante do corpo.
Com a escrita não foi diferente, foi preciso criar métodos para a soltura dos dedos e o fluir das palavras. Passei a conversar com essas histórias, lhes fazer perguntas. Aos poucos iam surgindo respostas e, em gargalhadas e prantos, as conversas se estendiam. Eu que por diversas vezes fui silenciada e interrompida, mal conheço o tom da minha voz. Era preciso me ouvi dizer cada palavra, em alto e bom som. Meu corpo reagia a cada frase. O samba, que nunca me abandonou, mais uma vez, com maestria, traduz os sentimentos e dá pulso às memórias. Alguns compositores explicaram sabiamente o que sinto e eu não tenho a menor intenção de desdizê-los.
A ideia inicial era trazer Dona Sonia, minha mãe, para cena. Nós, entrelaçadas a minha avó e à bisa. Sem desatar. Com o isolamento social, foi necessário repensar essa ideia, colocar nossas vidas em risco não era uma opção. Conversamos e chegamos a um consenso: dançaremos juntas, ainda que mediadas pelas telas, dançaremos juntas. Assim fizemos.
Não foi apenas a plataforma de compartilhamento que mudou, 4 meses de distância física causam diferenças nos corpos e nas relações. A vontade de estar perto é grande e as redes nem sempre parecem dar conta. Nos dias das gravações dela, eu, do lado de cá, dançava e sorria junto e a todo tempo a lembrava de que a conversa era comigo e não com a tela. Nos dias das minhas gravações eu olhava para ela e através dos seus olhos enxergava tantas outras. Trouxe à pele o pisar, o olhar e o sentir que me foi mostrado há muito tempo. Me entreguei. Girei.
O corpo de minha mãe, aquele que guardo na lembrança e no jeito, já não se apresenta da mesma maneira, hoje é muito mais parecido com o de minha avó. Eu, as sigo. Aterro. Bebo da água com gostinho de terra, esmalto as unhas e pinto os lábios de vermelho vibrante e sorrio. Com os pés ao sol, aqueço e me deleito em giros refletindo outros tons nas paredes da cozinha.
O vídeo “Nós” é movimento, passos primeiros de um longo caminhar. Sigo em pesquisa de mim, em experimento, procurando nos dizeres do corpo as respostas para dos muitos porquês que me cercam. É preciso entender o tempo de maturar e (re)descobrir, compreender o momento entre o afrouxar e o apertar de nós, implodir as barreiras para um novo construir.
Sou eu, sou eu
Sou eu o amor de mãe
Sou eu o amor de mamãe
Até morrer, sou xodó de mãe
(Composição de Martinho da Vila)
A bisa Maria partiu em 2000, foi uma honra conhecer e conviver com ela, a lembrança do seu sorriso ainda aquece o coração. Vó Magdalena fez sua passagem em 2012, no mesmo dia em que celebro a minha chegada nesse mundo e volta e meia suas risadas iluminam o dia. Os sorrisos de minha mãe são intensos, gargalhadas altas, daquelas de ouvir da esquina. Acho que faço o mesmo, algumas vezes por naturalidade, outras vezes por imitação. Quanto mais o tempo passa mais me vejo nelas.
Dizer que essa pesquisa se encerra aqui é limitá-la, as descobertas não findam. Agradeço a bisa, a vó e a minha mãe pela troca tão generosa. Agradeço a Fátima, minha tia (irmã caçula de minha avó) e a Miriam Cristina, minha tia dinda (irmã caçula de minha mãe) por gentilmente cederem seu tempo e compartilhar comigo suas histórias, nossas histórias. Ainda temos muito o que conversar e dançar. Agradeço a Thereza Rachel, minha irmã, pela ajuda com captação das imagens e por carregar no quadril uma autoridade me inspira a continuar. Agradeço a toda família de laços sanguíneos, laços espirituais e aos laços que são feitos nas andanças da vida, cada um é peça fundamental no meu caminhar. Um cheiro gostoso no Milton, meu pai e Marcus Vinícius, meu irmão. Agradeço as demais mestras e mestres que ao dividir comigo multiplicaram as minhas possibilidades de seguir. Agradeço a quem veio antes e construiu e resistiu no caminho para que hoje eu pudesse escolher passar. Agradeço a Orí e aos Nkises, sem eles não há trilhar.
Ainda são desconhecidos os caminhos pelos quais essa estrada vai me levar. Há muita gente pra (re)conhecer e histórias para contar. Entendo não haver espaço para a dicotomia certo e errado e o “pra frente” há muito tempo deixou de ser a única direção correta. Nesse momento, percebo que o mais importante é o movimento e a ele me prendo. E é por meio desse movimento de corpos que entendo a história de um povo e de um tempo, crio e recrio minhas narrativas me reconhecendo nas mulheres que me cercam.
No girar de tantas saias, me esbarro nelas
As de hoje, as de ontem, as de amanhã
Gerações.
No girar da saia delas, acalanto
Colo em bantu
Gera ações.
No girar da minha saia, reencontro
Silêncio rasgando o vento
Gira e ações.
A benção às suas saias
Licença às suas giras
(por mim, Beatriz Oliveira)
Parafraseando João Nogueira, “quando eu danço a morte me percorre”.
Sigamos.
Asè.

 

Referências:
Maria das Dores de Oliveira, que dentre tantas coisas, também é minha bisavó
Maria Magdalena de Oliveira, que dentre tantas coisas, também é minha avó
Sonia Maria de Oliveira Arão Camargo, que dentre tantas coisas, também é minha mãe
Abassá Burungunzo Orokedan e Dandaluna Ajiomu
Grêmio Recreativo Cultural e Social Escola de Samba Vai-Vai
ANASTÁCIO, Luiz Fernando da Silva, O corpo que fala é o corpo que escuta, 2018.
BROWN, Mano. Extra do DVD Mil Trutas Mil Tretas. 2006. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=slwalSi03g8>. Acesso em: 24 mai. 2020.
CAPUANO, Fernando. Vai-Vai: 80 anos nas ruas. 2013. Disponível em <https://vimeo.com/groups/368789/videos/146005791>. Acesso em: 24 mai. 2020.
GERBER, Raquel. Orí. 1989. Disponível em <https://canalcurta.tv.br/filme/?name=ori>. Acesso em: 17 mai. 2020.
Martins, Leda, Performances da oralitura: corpo, lugar de memória, 2003.
Nascimento, Beatriz, Possibilidade nos dias da destruição, 2018. Editora Filhos da África.
Santos, Inaicyra Falcão, Corpo e Ancestralidade: Uma proposta pluricultural de dança-arte-educação, 2019, edição 4ª.
Santos, Inaicyra Falcão, Corpo e Ancestralidade: Tradição e Criação nas Artes Cênicas, 2017.

Pelo olhar de Ian Muntoreanu

Feitura

Feitura.

Manipulação.

Eixo. Equilíbrio.

Coletivo. Individual.

Transe.

Procedimento. Experimento.

Cicatriz. Cicatrizes. Marca(s) e mancha(s)... passos de um processo que começou há muito tempo. Caminhos percorridos pelos meus e outros pés, muitos pés. Movimento.

É caminhando que vivo o caminho. Sigo só, entre e em par(es). 

É caminhando que descubro os porquês e as rotas.

É caminhando que entendo que para frente nem sempre é a melhor direção. Recuar é seguir. Parar também é seguir.

É caminhando que repenso o que é dança e a cada passo percebo que comer, sorrir, calar, ouvir, estar, sentir e ser também são ações que determinam o meu dançar.

É caminhando que decido o que carregar na bagagem e engatilho memórias, me apoio e sou apoio de outros corpos, espaços e percursos. 

É caminhando que (re/des) construo histórias.

É caminhando que conheço o caminho.

Sigo. Desconfiada, aos poucos me permito ao desconhecido que, por muitas vezes, conhecido é. Descontrolada, passeio e ora me rendo ao medo de me perder (ou me encontrar) e ora cedo a necessidade de estar.

Pode um corpo esvaziar-se de si para preencher-se do outro? Quanto espaço há em cada corpo? Quanto espaço cada corpo ocupa? Quais são os espaços que nos habitam?

O movimento de ir ao encontro do outro no território de despertar de cada corpo, para olhos e ouvidos atentos, é aprendizado e entendimento. Entendimento do que não é dito, do que não se sabe ser vivido, das construções individuais e coletivas de cada expressão, permissão e ação. Movimento de escuta e muito afeto. Pausa do eu, observação do seu, vivência do nós. Riqueza, potência e transformação. Odores, texturas, sabores, sorrisos... um jeito de corpo que requer intimidade e que precisa se sentir à vontade para acontecer e, mesmo que seja por entre as frestas daquilo que se espera, acontece.

E por falar no que se espera, como já diziam os mais velhos “nem tudo é como a gente quer”. Pausa do eu, do seu e do nós. Há percursos e perguntas que ficaram no imaginário e o “não deu tempo de ir” deu lugar ao “não era tempo de ir”. Meu olhar se choca com o reinado do tempo em ação. Tempo de escolhas simples e complexas que ditam rumos.

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Se encontrar com alguém parecido é gira... e gira. Gira até se compreender o confiar. Gira até se entender que o que precisa e pode ser dito. Gira até a entrega dos sorrisos. Gira no tempo e nas gerações. Gira em reza, em oração, daquelas que tem o poder da cura, esteja perto ou longe, aqui ou em outra dimensão. Gira em rezas de vó.

Se encontrar com alguém oposto, também é gira... e gira. Gira até se atrair, assumir as admirações do outro em si. Gira em entrega e partilha. Gira em eixos, desejos e caminhos. Gira junto, agarradinho, abraçado a um feminino comum e particular. Gira em dois, em muitos e em par. Gira por necessidade e essência de girar.

Se encontrar em si, também é gira... e gira. Gira em lembranças e faz lembrar. Gira doce, se deslocando para fora, para dentro e no mesmo lugar. Gira nela, nas outras e em mim. Gira em vermelho, em crochê e em feitiço, assim como a cozinha de minha mãe, aquela de outros e desses tempos, que carrego no gosto e nas memórias. Espaço sagrado, mantenedor de saberes, fazedor de estratégias de sobrevivência, alicerces da fé que me constitui. Reflete. Aquece. Alimenta. Gira.

Pelo olhar de Thico Lopes

Das conexões e laços feitos por outros pés, me deleito. Canto em oração, com passos que me levam de volta para a casa que mora em mim. Devagar, finco raiz, aterro e me demoro. Contrapondo a cronologia do tempo linear, que tanto tenta me excluir, me permito. Choro. Contraio. Sinto. De mãos dadas, entendo e me enxergo. Choro. Expando. Entrego. Vivo.

Me vejo por, através e além das marcas que arrancam lágrimas e sorrisos. Marcas manchadas que aqui podem ser ditas, vistas e mantidas, assim como meu corpo e aquilo que o constitui. Tudo é celebrado e compreendido: os caminhos, as alegrias, as fragilidades e dificuldades. Tudo é corpo e cada corpo existe. Existe como se é e como se quer ser. Existe preto, poético e político. Existe tal qual as cicatrizes que dançam num tempo outro, único. Poder. Superpoder. Poder se ver com superpoder. Poder saber um superpoder. Poder escolher. (Super)Poder.

Cicatrizes é (e continuará a ser) passos de um processo que começou há muito tempo. Tempo que passeia por entre mundos, que transita entre tempos e que no tempo certo cicatriza. Tempo que se veste de muitas formas e assim nos dá tempo de entender e quem sabe apreciar. Tempo de conceber. Tempo de nascer. Tempo de amadurecer. Tempo de morrer. Tempo de reviver. Tempo que pulsa, floresce e recomeça.

Sigo nos caminhos percorridos pelos meus e outros pés agradecendo e louvando as existências que habitam em mim.

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