ÌRÓSÚN

a cavidade, o abandono, a renúncia

“Èyàn kì í mọ iyì ohun tó ní, àfi tó bá sọọ́ nù"

"O homem não sabe o valor do que possui, a menos que o perca."

- Provérbio Yorùbá

Igbasile por: Marina Oliveira Barbosa e Silvana de Jesus

Carta à Ancestralidade por Marina Oliveira Barbosa

Na voz do cantor e historiador, meu mestre Salloma Sallomão Jovino da Silva, "o mar é fruto da saudade" e nas lágrimas que descem sal na garganta que grita em silêncio, caminho segurando mãos que não são palpáveis, mas essência com aroma de alfazema que percorre águas de Kalunga. Sigo forte, pois sei que gigantes me acompanham e me protegem do que nem sempre consigo ver.

 
Escrevo palavras que jamais irão traduzir sentimentos do meu íntimo, pois nossa oralidade e signos, nossa cosmologia de outro lugar que reverbera da ponta dos dedos do pé até o fio de cabelo, configuram outras presenças negras recuperadas, para mim, nas línguas que ressoam sons tão nossos que jamais sou apenas eu. 


Agradeço o sorriso melado de mel e as ervas que me deixaram e que hoje me banho nas manhãs de sol e chuva. Danço vento e lua para demonstrar que minha paz vem da tua. E que de todas as coisas na vida, meu laço maior vem da promessa de sermos muito mais estrelas nessa terra; presentes no céu largo céu das distâncias que nos aproximam, quando conscientes sabemos que todo rio tem mar. 


Que nosso futuro seja realmente ancestral para que na nossa boca nasça sempre a terra que fica para dar vida, sementes dos pássaros e rastejo da cobra que dá cores. Que o peixe alimente e dê irmãos, cavalgando em gotas para tudo seme'ar. Flor é florir. 


A abundância é viagem nos olhos dos espelhos e as margens que me guiam são os seus reflexos, com eles sigo ávida para o nosso amanhã de sempre hoje. Com saudade da nossa goma e um até logo. Viajo cansada para mais uma passagem transatlântica. Estou voltando em dança ritmada dos movimentos das folhas e dos barcos. Estou chegando para abraçar o que é tão eu e tão mim que me perco em você sendo imensidão de nós: plural. 


Lá vamos nós, sermos. Obrigada pelo presente, meus amores. 

Registro de Silvana de Jesus: Carta à ancestralidade,
exercício escaldapés com ervas e exercício aterrando os pés

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