Joyce Aparecida da Silva

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Momentos

Experimentos Projetos Cicatrizes 

 

Cuidar, atentar e se sensibilizar são as palavras para o momento, pois, cuidar do seu próprio corpo, do seu ser e do outro em processo de criação ao meu ver é estar atenta com tudo que acontece a sua volta e se sensibilizar com um processo que mexe com “estruturas” que esta além do corpo físico. As experimentações são rodeadas de encontros de olhares que por vezes parece desafiador ou de recuo (medo). O corpo em constante vibração (reverberação) e ainda perceber outros corpos é de uma poética sem ponto final. É sensível. 

 

O equilíbrio corpo e objetos, olhares e movimentações formam um conjunto de experimentação que é desafiador, tudo se torna um desafio, pausar, (pausar: medo de perder o foco ou até de desestabilizar o outro que estar em cena, mas pausar também é olhar o que o outro tem para oferecer, eu particularmente vejo na pausa o momento que tenho para observar o que está acontecendo a minha volta), respirar, entender ou não entender o transe, trabalhar em cima de uma imagem, manipular ou ser manipulado faz parte de uma dança que retrata um corpo que por muitas vezes está cansado e dolorido. E que além das cicatrizes que carrega tem que lidar com essas outras dores que fazem parte de um aprendizado... de um processo artístico e de evolução como ser humano. 

 

Quando digo evolução é porque além de movimenta lo constantemente é evolução por ouvir histórias, compartilhar alimento e conhecer as dificuldades e as não dificuldades das pessoas que estão ao nosso redor é suave, admirável é mais uma vez desafiador. Por oras, a angústia de certas histórias fica engasgada na garganta como um choro contido, mas também há momentos que as histórias nos retiram gargalhadas e enfim o silêncio para compreensão que às vezes nem será compreendido. 

 

E as experimentações diárias não param, tudo faz parte de um grande processo, assim como o carvão, o mesmo carvão que serve para as festas, comemorações em geral, para fazer aquele churrasquinho que todos gostam, ou quase todos, compartilhar momentos de alegrias, que serve para riscar uma amarelinha para as crianças brincarem é o mesmo carvão que passa por momentos de pressões e temperaturas, faz crianças chorarem, pois não sabem o que é brincar, intitulo “carvão das dificuldades”, que intoxica a alma de muitos, enquanto ilumina a alma de outros que se divertem. 

 

No experimento do carvão é perceptível as nuances que ele provoca no ser humano, o riscar, o marcar o outro como forma de brincadeira, se transforma em marcas que não tem nada de brincadeiras. Momentos que ao olhar ao redor dava sensação de medo, devemos ou não ser submissos, qual a melhor ocasião para reagir. E ao cobrir um corpo com o carvão e o embalar com plástico as sensações ao ver e indagações pode ser diversas, a princípio que corpo é esse sendo soterrado? Vai sufoca lo? Oh, começou a ser mover, que beleza, agora é beleza e antes não? Embalado a vácuo, corpo preto, que passa por transformações sejam elas dolorosas ou não, faz parte do processo.

Chego a pensar que não sei se existe ou onde fica uma linha tênue. Pois, quando brincamos as marcas são: horas de alegria, horas de tristeza, pode ser por brincar e cair, pode ser por não poder brincar e perder a infância trabalhando e se machucando diariamente em todos os sentidos, física e emocionalmente, e essa marca física e emocionalmente também tem um dualidade. 

Ao meio de um caos de uma pandemia, esse corpo que vos escreve considerado ou não considerado cor de papelão molhado, continua em busca de transformações e não de respostas. Não neste momento. 

 

Segunda… Quarta… Sexta… Segun… Quart… Sext… Segu… Qua… Se…

Uma consequências de dias… as horas são corridas, os dias passam rápidos… não sei dizer se o tempo me consome, mas sei dizer que ao amanhecer muitas coisas podem acontecer.

E assim caminha nossos encontros de cada segunda, quarta, sexta… e horários diversificados, encontros esses que é marcado por uma viagem de praticamente duas horas aproximadamente, um trânsito que é impossível reverter e se ele tiver maior do que o costume a viagem aos encontros duram duas horas e meia, então o ideal é sair mais cedo do que o costume  para não correr riscos de atrasos. 

Pensando em toda a correria isso faz parte de um processo, pois, durante o trajeto tenho tempo para pensar e reparar como está esse corpo que se movimenta até um local onde vai se movimentar mais ainda, alimento meu corpo observando as pessoas que entram e saem do trem, metrô e do ônibus, nestas observações faço cinco baldeações, pessoas caminham juntos em pró de viver?... e a pergunta que fica é se estão vivendo ou apenas sobrevivendo?

Será que esses corpos independente de cor, raça e religião também estão cheios de cicatrizes? Será que temos noção da dor do outro? Enfim, por alguns momentos nesta caminhada diária ao encontro do grupo me desligo. Mas digo no sentido de que mente e corpo cansado desligam, independente do que no momento eu esteja indagando para mim mesma e acabo cochilando pois, as vezes o cansaço domina e as interrogações somem por segundos e dá margem ao sono. 

Sono esse que tem a obrigação de ser mandado para longe e dá continuidade as experimentações. Experimentações que parte de corpos extremamente diferentes em todos os sentidos.

E algo que vem marcando esse processo é a força que é dada em alguns momentos, uma força essa que as vezes ... digamos que um tapa que oras é retribuído pelo susto, oras pela revanche. Força essa que é diferente do trabalho de soltar o peso do corpo em outros corpos mas que aos poucos vou entendendo o caminho, assim eu espero.

 

Guillaume e a oficina...

Baliarino beninense e uma palavra para as aulas é agilidade. Mais uma vez o que aparece em mente para aguentar o “tranco” é FORÇA!!! Percebi nas aulas que não tenho nem a agilidade, nem consigo pegar no tranco (brincadeiras a parte), mas foi um processo de intenso exercícios e movimentos, movimentos esses que meu corpo absorveu algumas coisas e muitas outras não. Não porque eu não quis, mas sim porque encontrei dificuldades de acordar esse corpo para a novidade. Suas aulas retratavam uma dança fluida, explosiva, impactante e mesmo que as vezes tivesse uma suavidade era forte. Momento de grande atenção e aprendizado não só pela sua dança mas por ter que entender uma língua que mesmo que você escutem em outras modalidades de dança é um idioma que seus ouvidos não são treinados a escutar e compreender sempre. Enfim, corpo e escuta ativa constantemente.

*Força é o que não falta para muitas pessoas, a cada amanhecer temos que ter força para manter viva em nós sonhos e anseios de uma vida repleta de valiosas conquistas. Força = Esperança de dias melhores.

DUOS

 

Separados em duplas estamos... E em duplas fomos separados...

 

Fomos escolhidos e pudemos escolher com quem trabalhar os duos. Duos esses que nesta crise que estamos enfrentando por conta de uma pandemia está tendo que ser dialogado e experimentado separadamente, cada um no seu quadrado... mas mesmo assim em sua infinita poética é duo... A Luiza me escolheu... Escolhi a Beatriz...

 

 

Luiza e Joyce

 

Em conversas com a Luiza decidimos fazer um Poema Visual, pegar nossas palavras de como nos vemos em cena e com outras surgiram na conversa transformar la em um poema circular. E porque não dançar em círculos em tempo diferentes... Sim... a idéia parece ser boa!!!

 

A cena poderia ser alguns pedaços de papel simbolizando essas palavras ou folhas com essas palavras escritas.

Corpos... Cobaia... Entrega... Variação... Força... Velocidade... Caminhando... Observando...

 

E o quanto dessas palavras está presentes em nossos corpos?

Proposta da cena como ficará? Estamos em duplas... mas ao mesmo tempo não. Fiz um vídeo, com uma sugestão de movimentação e compartilhei com a Luiza. Ao analisar o cosmograma, partido do principio de instigação feita pelo Luiz, percebemos que nossa dança perpassa por todo cosmograma.

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Joyce e Beatriz

 

Escolhida fui... Agora, chegou a minha vez de escolher. E a pessoa que escolhi foi a Beatriz, que na minha opinião é uma pessoa de personalidade forte, mas que por trás de toda essa guerreira existe uma doçura singular... e de uma poética que só ela tem. Enfim... o desejo da Beatriz é estar em cena presente (estar em cena... sem fugir) e entregue.

 

A minha proposta é que trouxéssemos a cena as benzedeiras... movimentos que remetesse os ramos que usavam.  E assim foram surgindo muitas perguntas, muitas sem respostas é óbvio.

Pensar como é as benzedeiras de amanhã...

Tempo é o canal para a escuta da reza... Como a boca escuta a reza que faz na cabeça do outro?

Será que o movimento de Giro seria o suficiente para demonstrar esse tempo... esse canal?

 

Braços que são folhas

E lá vem os giros novamente em nossas conversas, porque também temos essa questão, será que o giro é o caminho para um transe?

Reza é no tempo da folha? 

Benzer é tempo?

É tempo da reza ou tempo da cura?

Quem é que passa pelo canal do tempo?

São tantas indagações... Que até parece que é poesia.

 

Sentimos a necessidade de fazer tanto, mas esse tanto não ser “descontrolado”, afinal também gostaríamos de ter o controle de nós mesma, mas ao mesmo tempo esse descontrole que é um dos desafios. Queremos pausar os movimentos e observar a outra, até se hipnotizar pela outra. E se a gente murmurar algo, afinal que reza é essa?
 

Ao falar que minha avó me benzia e saber da avó da Bia chegamos em um outro momento de ... Toda avó tem a sua reza? Qual é a reza da sua avó?

Será que queremos dançar a reza da avó? Corpo sereno.

 

Mais uma palavra para tudo isso: CURA, vem forte em nossas conversas.

 

Afastar mau olhado. Força dessa mulher...

 

Também analisamos o cosmograma que por sinal também tem todos os aspectos envolvidos em nossas palavras. Mas percebemos que transita muito pelo mundo espiritual e físico. Pela morte e pelo nascimento... Diria até que pelo “nascimento e renascimento”.

 

Pulsar do cosmograma... pulsar essas orações dessas avós. Giro em todos os sentidos é deslocamento.

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Cômodos – Sala

A sala sempre foi o lugar em que meus instintos artísticos afloravam, na sala que brincava de ser apresentadora, cantora, atriz, dançarina é na sala que ouvia música em alto e bom som. E é na sala que quando montei um grupo de teatro com os amigos a gente ensaiava, fazia as reuniões, e ensaiava mais um pouco. Na sala que temos um momento para apreciamos filmes, séries entre outras coisas que envolva a arte. Como disse para o Ian a sala é meu palco, faço meus giros, danço, atuo, não como a frequência de antigamente, mas ela continua sendo meu palco, seja de vez em quando ou nas minhas memórias.

A sala dos meus seus sonhos ela tem uma mistura das salas que já vivi quando morava de aluguel, com a atual sala que vivo, com as cores da sala que penso ter. E isso foi bem retratado quando o Ian desenhou a sala para o site, ela tem luz, tem claridade que amo, tem uma mistura de tons que amo, que não sei explicar em palavras, mas que está bem explicado de forma exuberante no site do grupo Ewé em forma de arte. E ela é um palco!!! É um Show!!!

Hérois Ewé

Minha Heroína

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Um ser que ajuda as pessoas mas, que some a qualquer momento... de uma agilidade admirável.  Que deixa sua marca pelo cheiro (flor de lótus) e tem até um sangue especial precioso.

Tem a capacidade de movimentar as coisas pela mente e a distância. Tem um guarda chuva poderoso, seu nome é um segredo ninguém sabe ao certo.

 

Sua vestimenta é uma mistura de mistério, mais com uma mescla de cores fortes e vivas, como marsala, vermelho. Talvez uma calça com saia ou um sobretudo que tem uma parte rodada (saia).

 

O que destrói essa heroína ou se tornar refém é machucarem as pessoas que ama. E se machucar por conta de seu precioso sangue.

 

Por ser misteriosa praticamente não fala, o guarda chuva ajuda nesta conversa, como se pode se aproximar sim, se não pode se aproximar o guarda chuva impede de alguma maneira.

 

E como diz a música que meu grupo fez para nossas heroínas...

 

Somos heroínas da mãe África...

Ao amanhecer o sol traz seu poder.

Unidade é força... divisão é fraqueza.

Somos Deusas a própria natureza.

Em qualquer quebrada chegamos com poder do fogo, vento e anoitecer...

Nanã... Oxumarê e Ewá

Pesquisa e Experiência no Vídeo Dança

Nanã: um andar pesado fazendo limpeza do lugar (no storyboard ela está limpando a pipoca) e se unificando ao barro, não deixando apenas para o Oxumarê e Ewá para molda-la.

** Barro e o peso (que ao me vê é pelas experiências que ela teve ao longo da vida, pelas decepções, aprendizados).

 

Obs: Poxa vida... ela foi enganada pelo Oxalá então ela também se sente no direito ao se sentir inconformada por algo. 

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Ainda não tive a oportunidade de ver essa flor pessoalmente, ou se vi em algum lugar, não me recordo, mas a escolhi como representação da Nanã, por achar tanto ela quanto sua cor bonita. Entre barro, lama... uma flor pode sim se fazer presente.

* O que me faz... me tornar vivo ou continuar vivo. O que me conecta, o que está presente em mim. 

 

Nas experimentações, percebo que o peso do corpo de Nanã não é só marcado pela idade, mas sim pelas diversas experiências que adquiriu no decorrer de sua narrativa. O girar, o caminhar faz parte da poética de seu corpo marcado por muitas lutas e conhecimentos recebidos e fornecidos em momentos diferentes. 

 

As dificuldades que encontrei no estudo foram de manter peso, de modificar o tempo, oras mais rápido, oras mais devagar, enfim, como entender a quebra do ritmo e variar a movimentação.

 

 

Oxumarê e Ewá: um andar de observação até chegar a Nanã. Observar um ao outro, fazendo algumas movimentações de sinuosidade, até se entrelaçarem.

** Colorido (Luz) (o arco íris após a tempestade).

 

Obs: Eu Joyce por exemplo, sempre após as chuvas saía sempre a procura de um arco íris. E até hoje quando acaba a chuva, e eu vejo pessoas no facebook, ou nos stories compartilhando “olha esse arco íris“, eu saio procurando o arco íris. 

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Entre as comidas que estava pesquisando resolvi escolher apenas uma por relembrar infância e juventude, a banana da terra com canela e açúcar, as vezes no lugar da canela e do açúcar usamos a farinha. É um alimento que comemos as vezes no fim de tarde. E quando meu pai morava ainda conosco era um dos lanches da tarde mais comido por nós. Preparado por minha mãe, mas o cheiro e o preparo sempre apreciado por mim e por minha irmã. Então por ter um valor sentimental e por perceber que faz parte das frutas de Oxumarê e Ewá, optei por reviver essa experiência, essa memória afetiva e doce que tenho pela banana da terra.

Estudando Oxumarê e Ewá me vem uma grande vontade de fazer uso da sinuosidade seja ela nos braços ou no tronco, na minha visão vejo neles uma grande luz, porém, encontro dificuldades da coluna como uma extensão da reveberação dos movimentos, de onde nasce o movimento e por onde ele passa e onde finaliza.

 

Embora, a meu ver, Oxumarê e Ewá, não tem por onde terminar o movimento, afinal, eu não sei qual o ponto do inicio e onde finaliza de fato o arco íris e a poética está exatamente nas cores, no imaginário de onde começa ou onde termina e na sua beleza exorbitante.

 

 

Minha experiência na gravação do Video Dança

 

Nanã

 

Argila, tinta e frio se misturam ao fazer Nanã... seu andar pesado, com uma caracterização digamos que marruda me faz pensar o quanto as marcas que adquirimos no decorrer de nossas experiências podem nos trazer sensações boas ou ruins... mas mesmo assim não deixa de ser uma experiência, uma vivência, uma marca... Cicatrizes do tempo.

 

 

Oxumarê e Ewá

E os amiguinhos Theo e Betina

 

Cores, brilhos, luzes e sinuosidade marcam a minha vivência com Oxumarê e Ewá. Com as cores do arco íris e com o efeito do glitter sinto que existe uma ar de comicidade neles, o olhar de cobra, o colocar a cobra mesmo que de plástico (silicone) e sentir aflição pelo seu rabo enrolado em meu braço, mostra o quanto podemos suportar algumas aflições, traumas de infância e ainda ri da situação.

 

Mas sem sombra de dúvidas as cores tanto de Oxumarê quanto de Ewá, seus brilhos foram momentos marcantes na minha vivência. Gravar o vídeo dança foi uma experiência única... de muitas purpurinas mas também de muito aprendizado. 

Minha Sala Vira Palco... Vira Palco Minha Sala...

Apenas breve impressão da finalização de um processo... O Espetáculo.

 

Emocionar

      Sentir

            Gerar

                 

                  Arrumar a casa

 

                         Se olhar para dentro

     

                               Ancestralidade

    

                                     Cheiros

 

                                          Texturas

 

Essas são apenas algumas das palavras que ficou das apresentações... foi um momento realmente mágico. Falar das minhas cicatrizes e falar de morte ainda não é muito fácil, talvez seja esse o motivo por quase não falar ao final dos dias do espetáculo. Escrever sempre foi algo mais "tranquilo" e mais uma vez o "talvez", seja por isso que começo minha dança rabiscando o meu corpo. Toda ferida mal cuidada vira uma cicatriz, mas penso também que mesmo que ela seja bem cuidada, aquela cicatriz estará lá seja mais marcada ou não, mas estará lá para te mostrar o quanto você gera... nasce... cresce... amadurece e morremos... muitas vezes morremos um pouco a cada dia ou ressurgimos da cinza. O que importa ou na verdade o que guardo desse momento é que devemos nos valorizar mais... nos cuidar e tirar lições de todas as fases dos momentos pulsantes que vivemos diariamente.

 

Ah... minha sala... minha sala sempre vira palco e continuará a Virar PALCO!!!