A ROTA CULTURAL ESCRAVOCRATA

 

Luiz Fernando da Silva Anastácio

 

RESUMO

 

Este artigo tem como proposição denunciar a experiência vivida no Benim no ano de 2019. Nesta ocasião, ocorreu o encontro entre artistas da dança do Brasil, Benim e Portugal, uma imersão de trocas que possibilitou perceber que o processo de escravismo ainda existe de forma muito vívida e que todos personagens da escravidão romantizada estão referenciados na contemporaneidade. O corpo negro, marcado pela violência histórica da escravidão, vivencia o racismo enquanto um projeto estruturado em uma polarização que parte da idéia de dominação, em um processo de violência escravocrata distinta em camadas. Quando pensamos em escravidão, na maioria das vezes, o que ressoa na mente é a dominação e os maus tratos ao corpo, causando sentimentos de empatia, revolta ou objetificação do ser, que dialogam com uma camada do racismo: a desumanização e humanização gerada a partir da noção de poder. Poucas vezes, quando se fala da escravidão ou de corpos escravizados, está em foco o conhecimento que estes corpos têm ou desenvolvem e o fato de que, muitas vezes, esse conhecimento também é e faz parte da estrutura escravocrata. Se posicionarmos que o racismo é uma invenção moderna como configuração de atuação e que essa concepção inventiva se utiliza e se nutre das relações mentais como arma de poder, é ingênuo pensar que o processo escravocrata marca apenas o corpo. A própria proposição moderna de separar corpo e mente institui e corrobora para a sustentação do pensamento racista e para as relações de poder advindas deste sistema. Todo o “arquétipo” de conhecimento do corpo negro, seja ele em seu território ou em trânsito, é visto como uma potência a ser desenvolvida. Quando esse conhecimento é supostamente capturado, passa a ser barganhado como moeda de troca para que o pensamento “separativista” de corpo e mente entre com seu repertório na promessa de salvar-lhe a “Alma”, desembocando em três fatores relacionais: Colonialismo, Eurocentrismo e Racismo, os “ismos” doentios do homem moderno, respaldados pelo conjunto de idéias doutrinárias a alimentar o sistema escravocrata. O corpo que morre leva consigo sua biblioteca. Como Achille Mbembe sempre retoma ao refletir sobre necropolítica: morrer não está somente na literalidade de findar-se enquanto vida, está também na impossibilidade de existir enquanto ser vivente.
 

PALAVRAS CHAVES: Corpo.Cultura.Escravocrata. Mente.Poder